segunda-feira, 19 de setembro de 2011

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"Mas duas pessoas não se equilibram muito tempo lado a lado, cada qual com seu silêncio; um dos silêncios acaba sugando o outro, e foi quando me voltei para ela, que de mim não se apercebia. Segui observando seu silêncio, decerto mais profundo que o meu, e de algum modo mais silencioso. E assim permanecemos outra meia hora, ela dentro de si e eu imerso no silêncio dela, tentando ler seus pensamentos depressa, antes que virassem palavras húngaras. Aí ela se sacudiu inteira, como num calafrio, fazendo a mochila escorregar pelas costas, e buscou um cartão de visita, que rabiscou a lápis e me entregou. E levantou-se e foi-se embora sem se despedir, deslizando de patins no tapete. Acho que me apeguei àquele silêncio, e a fim de prolongá-lo me recolhi ao quarto, onde passei o resto da noite olhando para o teto."

Chico Buarque. Budapeste, 2009. pgs 61 e 62

2 comentários:

lugar_teu disse...

Maravilhoso.
Vou ler!

Poly_andra disse...

Ai que lindo. É aquela história de que ficar em silêncio ao lado da pessoa, é mais intimo do que contar a sua vida inteira.
*--*

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